As pessoas valem pelo que são, e não pelo que têm. Gostava de dar força à razão das palavras que escrevo, mas como uns fazem coisas boas de uma certa maneira e outras menos bem, eu sinto-me bem a escrever e como sou um sonhador escrevo isto, para me sentir bem e com a minha palavra ajudar talvez ou outros.
Esta leitura é para os ("eruditos") porque eu sou popular e não percebo o que escrevo, acho até que não estou aqui neste momento, estou em todos os lugares imagináveis, mas menos aqui
Hoje acordei especialmente ligado a um dia como tantos outros, o nevoeiro não dissipa o meu pensamento, invariavelmente a textura do dia fixa-se numa aguarela ausente de qualquer hora do dia.
Ao longe o som do mar ecoa com fúria, repetitivo e sonante imiscui-se no tempo afirmando-se uma espécie de cumplicidade entre ambos. Entro no bar da praia, as mesas, as cadeiras, as louças expostas longe da subjectividade da sua criação, arrumadas indistintamente constituem-se como meros objectos que cansam o olhar.
Os gestos, os olhares clamam em sussurros, sem chama a voz e as palavras contagiam-se pelo tempo, o mar e o ambiente mergulham numa monotonia invisível e incansável. Forçando a saída das palavras, a expressão que lhe dá vida morre como instinto nos lábios, os olhares perdem-se no horizonte mortiços sem vida, as palavras morrem à nascença, tudo se torna silencioso e fútil.
O constrangimento deprime, a alquimia não flui, jogadores presos a mesas de bilhar e de cartas, tentam romper com o ambiente, completando-se um quadro que os prende e acorrenta à intempérie de toda aquela realidade, que encrava o som da voz nas gargantas indecisas.
O sol estrela cadente da solidariedade da manhã, envergonhado espreguiça-se, as âncoras dos seus raios iluminam momentaneamente, mas tudo se esvai num ápice, mergulhando-se novamente no oráculo da melancolia e da ambiguidade.
Vida forte e sedenta, longe da labuta dos campos, permanece inócua, a ingenuidade e a revolta bramem o sonho de um novo mundo, a razão raciocina com a auréola da manhã, a solidariedade desprende-se da razão e os seres humanos como autómatos cavalgam para a escalada do seu fim.
Aqui e agora, com gestos instintivos, estimulados pelo libido, cadenciam o desequilíbrio, tudo parece no lugar, a força objectiva indica que a subjectividade precoce carece de ideias objectivadas, ao antes e ao depois do pensamento, o aqui e o agora, cobre a equidade de instrumentalidade, na senda do económico e do filosófico.
Por entre gestos simples e mecânicos entra alguém, que traz no olhar a firmeza e o conhecimento, dispondo-se espontaneamente a quebrar toda aquela tela ornamentada e fictícia ausente da solidariedade e que foge ao resplandecente da vida, no olhar traz a força da natureza e a disposição em mover montanhas, o trabalho cravado no seu rosto é a sua fonte, mantêm-no preso à vida, convicto diz que se os seres humanos vivem permanentemente acorrentados, cabe-lhes também desprenderem-se dos grilhões dessas correntes, entre os que se calam e comentam, gera-se um clima de desobediência à força da razão.
O mundo à nossa volta é obra de nós todos, o sentido individual da questão que o sintetiza, perde-se no tempo, a passividade, o controlo e a manipulação prendem-se às raízes da auto-insuficiência que foge ao sinónimo da colaboração e participação, emergindo paradoxalmente repetitivas e inovadoras construções da humanidade. A participação e a colaboração permanentes, presas ao sentido auto-insuficiente, na luta por um mundo melhor, esbatem na insuficiência de muitos e na suficiência de poucos, ficando todos presos à realidade das suas práticas do quotidiano e relações encandeadas, assertivamente terá toda a lógica dizer que a humanidade merece tudo isto. Excepto as excepções que confirmam as regras da exploração porque nem sempre a regra confirma excepção
E como disse o poeta popular e porque sou popular
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.
A Cidade; Zeca Afonso
E como acabei de ("acordar") neste momento faltam-me as palavras e pergunto: que fazer?
A cultura popular vive de gestos, cheiros, sons,mímica, do calão,pregões etc. A cultura erudita, vive mais ao nível filosófico, da sintaxe da linguagem da argumentação, nem uma vale mais que a a outra, antes são duas expressões que se completam, como formas culturais da humanidade é por isso que sou popular,mas gostava de ser erudito, para exprimir pela palavra as desigualdades sociais que eu vejo e muitos não vêm, mas que outros na mesma linha de pensamento que o meu, vêm de outra maneira, se os políticos dizem as coisas que gostamos de ouvir, nós trabalhadores temos que dizer coisas que os trabalhadores gostam de ouvir, mas com uma diferença, é que a nossa palavra é para alertar para as injustiças, enquanto que a dos políticos é para seduzir e convencer
Da palavra à luta, na defesa dos mais desfavorecidos, contra a pobreza e por condições de vida dignas para todos os que delas carecem e, sobretudo para quem com a sua força de trabalho, faz girar o mundo inteiro, sendo-lhe surripiados direitos a cada dia que passa. Onde está a simbologia da classe operária a seguir à Revolução Industrial, perdeu-se no tempo?
Saudações sindicais
14.10.09
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