Retalhos de vida: no renascer de cada gesto; O meu pai e eu
O dia lânguido e seco nascia ao som metálico dos galos. A luz da manhã entrava oprimida pelas frestas da janela refulgindo no balcão da taberna, convidando à fuga daquela realidade sedenta e doentia. O ar grave e sério que esbatia da cândida claridade, corporizava-se no resplandecente de cada olhar, que comprimido das agruras da vida permanecia suspenso em cada órbita, de quem na austeridade carregava nos ombros a monotonia do quotidiano.
Cá fora um pássaro preso numa gaiola choramingava, sabe-se lá porque solidariedade perdida no vazio, mas que tardava, embrutecendo aquele ambiente sôfrego e deprimente. O inócuo da solidariedade da manhã estendia-se horizontalmente, aliciando a depreciação de toda e qualquer tentativa para denunciar e romper com aquela tela bucólica, plácida, prolongada no recôndito de cada ser que por ali estava, passava e habitava.
De repente uma canzoada de sons, alfaias, cães, máquinas, pessoas e animais confundiram-se com gemidos prolongados e sussurros esvaídos em fluidos retraídos pincelando aquele quadro.
Como que um despertar daquela ode, taciturna e dolorosa, um lavrador extenuado da faina, acercou-se do balcão e pediu vinho, fazendo lembrar um viajante da idade média depois de uma longa caminhada e disse: Ó da casa dá-me cá vinho, para limpar o pó da garganta, que este trabalho de um figa, dá-me cabo do canastro e olha que isto é para por na conta, que ainda não me pagaram ainda a jorna de trabalho.
As palavras do lavrador ecoaram como um som cavernoso, naquelas paredes com história, pediu mais um e mais e mais um copo, até saciar a sua sede. Revigorado saiu satisfeito a cantar e a tamborilar com os dedos nos botões da sua camisa; ó minha bela menina, deixa a mãe que te criou, casa comigo amor, que ela também se casou. O som ecoou no vazio, refulgindo por entre as copas das árvores, o licor do deus do vinho e da festa (baco), transformou-se em sede romântica, embriagando-lhe a alma e o coração.
O néctar fluiu da força da razão para os seus lábios, com o desejo do amor, a masculinidade sobressaia nas suas palavras; quando morreu Adão, três dias choveu areia e, lá ia o lavrador pelas veredas que conhecia de olhos fechados, disposto a lançar sulcos à terra e a vingar-se do que a vida lhe tramou
A inocência de uma meninice atribulada ribombou na irreverência da adolescência, a sôfrega experiência adulta, clamava por uma vida melhor, a sublevação da vida em sintonia com a noite harmonizava o desprendimento da labuta e do dia, murmurando medo e agonia, no desapontamento; que desmoronava o castelo da criatividade ao som da estruturação das estruturas.
A vida oprimida trazia-lhe no silêncio das palavras, a noção de que; o calado vence tudo, ao entrar na sala de aula bem arrumada e limpa de mão dada com o filho, confeccionou-se um clima de obediência ao catecismo e à cátedra do Deus Pátria e família divulgado pela instituições e pela professora.
A disciplina desprendia-se do respeito, flutuando no ar a tensão e a revolta, a beatice da professora trancou a inocência de uma meninice objectiva e sedutora, à razão subjectiva dos actos simples e reais, mecanizando a permissão e mecânicos, daquele cenário lausperne, curro e convencional das convenções.
A crispação dos actos torna-se volúvel com o corte da iniciativa, a voluptuosidade do imediato da acção projectada na intuição do gentil de cada singularidade, campeia no renascer de cada gesto, de cada olhar, não deixando perecer o consequente, a lógica do momento do eu, dos nós, e de nós todos, dizendo unicíssimos os pronomes pessoais e demonstrativos da razão una e indivisível da sociabilidade humana
Todo se apoia no instantâneo e subsequente; naquela manhã de outubro de 1968, caiam folhas secas, a chuva serena e dolosa, gemia, a ladainha abafava os gestos e as palavras, contra a subserviência do momento, o aluno arremessou os livros ao ar dizendo; lá vai a festa, no primeiro dia de aulas estava traçado o seu destino escolar, naquele ano não passaria de classe
A sede taciturna de uma vida melhor campeia nas gargantas, as giestas, as carquejas, os abetos, os cardos, enegrecidos com o pó que flutua, bloqueiam-na, ávidas procuram saciar-me no oásis da vida, a ingenuidade e a revolta, bramem um sonho no desespero alucinante que pede apenas a compreensão humana.
As questões existenciais presas ao quotidiano não quebram as rotinas, emergindo no acaso das contingências, a luta escorada por uma sociedade mais justa com gestos firmes e espontâneos de um processo inacabado.
José Casimiro